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domingo, 7 de agosto de 2016

Fandango, um patrimônio vivo



 Grupo folclórico de Canguaretama é o primeiro a receber bolsa vitalícia do Governo do Estado
Sérgio Vilar // sergiovilar.rn@diariosassociados.com.br
                                        Foto: Kal Fernandes
O  grupo em uma de suas últimas apresentações na procissão da padroeira do município
Pelas ruas simples do município praiano desfila a tradição secular. Um cortejo de populares segue a barca rodeada de marinheiros inspirados nas aventuras épicas de oceanos de outrora. São os capitães de mar e guerra e da história dos folguedos e autos natalinos. Na simbologia daquele "veleiro" caminham raízes ibéricas perfumadas pela cultura brasileira mais genuína e popular. A barca do Fandango carrega mais de 150 anos de história sob o asfalto das ruas de Canguaretama. É o mais fiel às tradições do auto no Brasil e o primeiro grupo selecionado pela Lei do Patrimônio Vivo a receber a bolsa vitalícia e mensal no valor de R$ 1,5 mil.

O auto marítimo já foi manifestação indispensável às comemorações do ciclo natalino. Origem ibérica; herança portuguesa. Chegaram ao Brasil sob denominações de Fandango, Chegança, Marujada, Barca, Naucatarineta ou simplesmente dança de marujos. No Fandango originado em Canguaretama, os cerca de 30 integrantes vestem fardas da Marinha Mercante brasileira. Diferem mesmo dos outros autos no canto e enredo. Os do Fandango totalizam 24 jornadas ou romances. Alguns longos, de mais de 15 minutos de cantoria. A chácara da bela Naucatarineta é o núcleo central de todos eles. As encenações representam disputas, resingas, lamentos de marujos perdidos em alto-mar.

Para um dos maiores folcloristas vivos do Brasil, o potiguar areia-branquense Deífilo Gurgel, o Rio Grande do Norte é dos estados da Federação mais ricos em manifestações da cultura popular e o Fandango de Canguaretama é dos grupos mais originais e bonitos do país. O Diário de Natal acompanhou Deífilo e o presidente da Comissão Estadual de Folclore, Severino Vicente na viagem a Canguaretama, semana passada, para contatar os mestres do Fandango e informar a notícia da seleção na Lei. Como era esperado, nem os agentes da prefeitura nem os responsáveis pelo grupo sequer conheciam a Lei do Patrimônio Vivo, de autoria do deputado estadual Fernando Mineiro.

O responsável pelo Fandango desde 1971 é José Manoel do Nascimento Filho, o mestre Zé Dinar, 58 anos. Os folcloristas encontram Zé Dinar no açougue do mercado público, onde trabalha. Praticamente todos os "marinheiros" do grupo são pescadores, gente simples e que preserva a tradição do Fandango sem qualquer apoio municipal. "Nossa barca dorme ao relento, sem proteção nem teto", reclama Kleber Pinheiro, o Klebinho, 54, que divide com Zé Dinar as responsabilidade do grupo. "Tomo conta da parte administrativa. Se Zé Dinar sair eu também saio porque eu não danço e não tem quem substitua ele. Não temos apoio. Nem mesmo uma sala. Ensaiamos na rua. Conseguimos quem cedesse um terreno para nós, mas a prefeitura não levantou um tijolo", lamenta.

O último convite para apresentação do grupo foi em dezembro, durante a procissão da padroeira do município. "Quando chamam a gente pra se apresentar fora, a maioria precisa voltar com alguma comida para casa. São pescadores. E se passam o dia fora não tem peixe no dia. Mas cansei de promessa e voltar de Natal sem nada", reclama Klebinho.

A expectativa de Severino Vicente é a de que a bolsa concedida pela Lei possa proporcionar mais dignidade ao grupo e o folguedo seja preservado. Segundo Zé Dinar, nenhum integrante do grupo sabe cantar todas as jornadas. O mestre teme que o repasse ininterrupto do saber destes fragmentos longínquos das encenações e cantorias entre as gerações possa ser interrompido quando ele parar. Segundo Severino Vicente, a encenação teatral retrata a luta entre mouros e cristãos, com seus duelos de espada, obrigando os infiéis a se renderem e invocarem o nome da Virgem Maria. Submetidos e presos, os mouros pedem o batismo.

Severino explica que o Fandango é inspirado na aventura épica de uma velha Nau, perdida em alto mar durante sete anos e um dia, a caminho das terras de Portugal e Espanha, com a tripulação vivendo momentos de angústia, aflição e incerteza. Não havendo mais o que comer e beber apelam para se alimentar de solas de sapatos. Mas, as solas eram tão duras que não conseguiam comer. Botam as sete sortes, para sortear um dos componentes e alimentar os demais. O sorteado foi o Capitão, o mesmo reage de espada em punho. Do topo do mastro o Gajeiro mira o brilhar das espadas, em seguida solta o grito: Auvistas meu capitão/ auvistas venho lhe dá/ avistei terras em Espanha, ô tolinda/ e ares de portugá. Também avistei três moças, ô tolinda\ Debaixo de um parrerá/ Uma desfiando seda, ô tolinda/ procurado um adedá.

Os primeiros organizadores do Fandango de Canguaretama foram Manoel Francisco de Andrade (Manoel Lima) e Genésio Mangabeira. Em seguida veio Antônio de Andrade (Antônio Lima) e Geraldo Costa. Apresentam-se com 40 componentes e se organizam de forma hierárquica. Capitão de Mar e Guerra, Capitão de Fragata, Capitão Piloto, Capitão Imediato, Mestre e Contra-mestre, Gajeiro, Calafate, Ração, Vassoura e marujos. 
Fonte: Diário de Natal

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