A SANTA CRUZ DA COMUNIDADE DE PALMEIRAS: UM MILAGRE, UM MISTÉRIO...


TEXTO 
Joana d’Arc Arruda Câmara (Darquinha Arruda)
Ocupante da Cadeira número 28 da ACLA.
A Santa Cruz de Palmeiras, também conhecida como Cruzeiro, fica localizada no distrito de Palmeiras, município de Ceará-Mirim, a 12 km da cidade. Uma construção antiga, de quase um século, um espaço simples e pequeno, aberto nas laterais, e na frente uma entrada sem porta, dando acesso às pessoas a qualquer dia e hora para fazerem seus pedidos ou pagarem suas promessas. Na parte interna da Santa Cruz, um pequeno altar, nele encravada uma cruz de madeira e várias imagens de Nossa Senhora da Conceição. Na parte externa, ao lado, eram enterradas as crianças daquele distrito. Era uma espécie de cemitério clandestino.
A Santa Cruz era cuidada por uma senhora idosa que era “rezadeira” e parteira, conhecida por todos como Bebé Gomes, mas seu nome verdadeiro era Isabel Gomes. Durante todo o mês de maio, Dona Bebé Gomes, juntamente com as comunidades de Palmeiras e de Rio dos Índios, rezava a novena de Nossa Senhora. Logo após a novena, os fiéis saíam em procissão com a imagem de Nossa Senhora da Conceição sobre o andor, o qual ia sempre todo enfeitado de rosas de papel crepom, e a procissão ia iluminada com lanternas, que eram velas acesas e envolvidas com papel celofane colorido. Os fiéis acompanhavam a procissão cantando:
“A 13 de maio na cova da Iria
no céu aparece a Virgem Maria.
Ave, Ave, Ave Maria...”.
Todo ano no mês de dezembro, era celebrada uma missa na Santa Cruz pelo Padre Ruy Miranda. Nessa missa, eram batizadas todas as crianças pagãs da redondeza. Era um dia de festa na comunidade. Eu participei várias vezes não só das missas como também dos batizados. Ia acompanhando meus pais, Amélia e Milton Arruda, que eram convidados para serem padrinhos de batismo (na época se chamava “padrinhos de vela”). Eu participava como madrinha de apresentar. Hoje não existem mais essas denominações de batismo na Igreja Católica.
No dia 29 de julho de 1998, nas localidades de Palmeiras e Rio dos Índios aconteceu um deslizamento de terra em consequência de grande volume de chuva. Todas as casas da região foram destruídas, inclusive com vítimas: várias famílias perderam filhos, pais, mães, maridos, esposas... Os moradores passaram a noite dentro do canavial, esperando o dia amanhecer em busca de socorro. No dia seguinte, a estrada ficou tomada de objetos destruídos, como eletrodomésticos, móveis e restos das casas.
Tive a oportunidade de ver de perto essa situação e senti uma tristeza grande, pois Palmeiras é minha terra natal, onde vivi minha infância e adolescência.
Para a surpresa de todos, a Santa Cruz não sofreu nenhum abalo em sua estrutura física, sendo isso considerado pelo povo da região como um milagre. Os moradores que sobreviveram construíram suas casas nas mesmas localidades, sendo na parte de cima, onde chamamos de “arisco”. E apesar da ausência dos fiéis e de Dona Bebé Gomes, Nossa Senhora da Conceição continua presente na Santa Cruz, certamente para confirmar esse milagre.
VIVA A SANTA CRUZ DE PALMEIRAS!
NOTA DA ACLA: - Esta foi uma tragédia ocorrida há 18 anos. Fato notório, amplamente divulgado pelos meios de comunicação do Rio Grande do Norte e do Brasil. Muitas mortes, muitas perdas, muita destruição. Mas a Santa Cruz permanece, até hoje, de pé, conforme narrado pela Acadêmica Joana D’Arc, comprovado com as fotos feitas em 15/04/2015.

ACLA

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