COMO É TRATADA A CULTURA E A MEMÓRIA DO NOSSO POVO: VEJA A MATÉRIA SONHO EM RUÍNAS E CONFIRA SE NA SUA REGIÃO TEM ALGO ASSIM

POR Cinthia Lopes
editora  

A Ribeira será o local perfeito para passear no final da tarde com a família, curtir um happy hour com os amigos ou ainda esticar a noite e cair na balada. Um verdadeiro museu a céu aberto, com casarões bem conservados de fachadas coloridas. No futuro próximo, o bairro histórico terá intenso movimento de pessoas interessadas em aproveitar o charme dos bares e galerias de arte instalados nos imóveis antigos restaurados. Ruas bem urbanizadas e arborizadas, acesso e mirantes para o Rio Potengi, segurança, sinalização bilíngue, iluminação e limpeza, com estrutura para receber um turismo qualificado. E tudo com incentivos fiscais (IPTU e ISS), lei municipal que passa por ajustes para ser reeditada.
Júnior SantosO imóvel foi tombado pelo Iphan em 2010 e até hoje não recebeu nenhuma melhoriaO imóvel foi tombado pelo Iphan em 2010 e até hoje não recebeu nenhuma melhoria

O sonho, em forma de plantas baixas e maquetes eletrônicas, conquistou simpatia de muitos em meados de 2000 e encheu os olhos da empresária carioca Paula Homburger, 55, que atualmente trabalha como tradutora freelancer no Rio de Janeiro. Entusiasmada com a proposta e vislumbrando um futuro promissor, não contou conversa e sacou suas economias para adquirir um imóvel em especial, o Edifício Galhardo (nome oficial do casarão onde funcionou a lendária boate Arpeje), um imponente imóvel de três pavimentos situado no número 161 da Rua Chile. Em 2005, contrariando o conselho de amigos, investiu R$ 110 mil na compra do antigo casarão com planos de abrir um restaurante no térreo e uma pequena pousada em cima. O edifício foi utilizado apenas uma única vez, em 2006, como locação do filme “O homem que desafiou o Diabo”, produção dirigida por Moacyr de Góes inspirada no livro “As pelejas de Ojuara”, de Nei Leandro de Castro.

“Você não imagina o projeto que nos foi apresentado. Era tudo tão perfeito!”, lembrou Paula por telefone ao VIVER. “Que outras pessoas também compraram imóveis na época, com a mesma intenção de abrir um negócio na Ribeira”, emendou. Wilma de Faria, atual vice-prefeita, era a chefe do executivo no período.

Vale lembrar que a revitalização da Ribeira está em pauta desde o início dos anos 1990. Em documento emitido pelo Iphan-Rn em 2003, tratando da “rehabitação” de prédios na Ribeira, como o restaurado e funcionando Edifício Bila, na Av. Duque de Caxias, a restauração do Galhardo foi estimada em R$ 279.591,37.

Segundo ela, quando comprou o casarão, o imóvel estava na lista das casas que a Prefeitura iria comprar. “Sentei várias vezes com o pessoal do patrimônio histórico, havia um projeto para restaurar toda a Ribeira. Quando percebi que o projeto não iria emplacar, procurei artistas e grupos, queria manter o espaço funcionando. O máximo que me ofereceram foi incentivo ”.

Pesadelo
Paula viveu em Natal entre 2003 e 2007, tinha um restaurante na praia de Maracajaú, e confessa ter se apaixonado pelo RN desde a primeira visita – teve de voltar para o Rio de Janeiro devido a saúde fragilizada do pai. Entre 2011 e 2012 voltou a morar na capital potiguar, com a missão de resolver a questão do imóvel (vender ou repassar para o poder público). “Depois que Wilma saiu (da Prefeitura), ninguém mais tocou no assunto ‘revitalização da Ribeira’ e o sonho virou pesadelo”.

E virou mesmo: antes de vencer a burocracia e transferir o Edifício Galhardo para seu nome, o segundo andar da Arpeje ruiu com as fortes chuvas que caíram em Natal naquele mês de junho de 2008, dois anos e meio após Paula assinar o contrato de compra e venda chancelado por Magnólia Galhardo Rocha, herdeira do tipógrafo Nestor Galhardo, que havia adquirido o imóvel de uma família de alemães em 1953 – local, ele montou sua gráfica no térreo e arrendou os dois pavimentos superiores para a boate Arpeje. 

Tombamento 
A laje superior do Edifício Galhardo, que até então não tinha sido tombado pelo patrimônio histórico, desabou dia 9 de junho de 2008. Telefonaram avisando, e no dia seguinte Paula Homburger começou sua peregrinação para tentar salvar seu investimento: procurou Iphan-RN, Prefeitura, Secretaria de Meio Ambiente e Urbanismo (Semurb), Fundação Capitania das Artes e Corpo de Bombeiros. Cada passo foi devidamente registrado e protocolado: ela repassou à reportagem da TRIBUNA DO NORTE um calhamaço de processos, laudos, vistorias, solicitações e cartas. 
frankie marconeO edifício Galhardo (Arpeje) teve parte de sua estrutura comprometida quando ruiu em 2008O edifício Galhardo (Arpeje) teve parte de sua estrutura comprometida quando ruiu em 2008

Entre os documentos uma curiosidade: um ano antes da Ribeira ser tombada como patrimônio cultural brasileiro pelo Iphan nacional em 2010, o município já havia tombou isoladamente o Edifício Galhardo. Ela diz desconhecer os motivos para o tombamento avulso, e hoje responde processo movido pelo Iphan que exige a restauração do imóvel. “Não tenho recursos para fazer os reparos exigidos, informei isso logo após o desabamento por carta (protocolada dia 16 de junho de 2008) ao prefeito Carlos Eduardo”.

Logo após o desabamento, um ano antes do tombamento municipal e dois anos antes do tombamento nacional, Paula tentou autorização na Semurb para demolir o que restou da finada Arpeje – na ocasião apresentou vistoria assinada (dia 20 de junho, 11 dias após o sinistro) pelo engenheiro Manoel Fernandes de Negreiros Neto, onde ele recomendada “imediata demolição” e urgência no escoramento, isolamento da área e reforço estrutural até que o tombamento (literal) seja providenciado.

Com a demolição negada, foi atrás da Urbana para que os escombros fossem removidos; pediu orientação do Iphan-RN e dos Bombeiros; buscou ajuda para fazer um escoramento de emergência... nada! “Na gestão Micarla de Souza cheguei a procurar novamente a Funcarte, mas riram da minha cara e pararam de me atender”, reclama. 

Em tempo: o PAC Cidades Históricas vai lançar linha de crédito para restauração de imóveis particulares no valor de R$ 300 milhões para todo o Brasil. A previsão para o lançamento é 2015. Até lá, se o edifício não cair, Paula aguarda uma solução e/ou algum interessado em comprar o imóvel. E pelo que consta, quando o proprietário não tem condições de manter um imóvel tombado pelo patrimônio, ele é desapropriado pelos órgãos competentes. “Sei da importância histórica do lugar e gostaria bastante de vê-lo restaurado”, finaliza.

MEMÓRIA
Década de 1940 – após a Segunda Guerra, o edifício é construído por uma família de alemães

1953 – O tipógrafo Nestor Galhardo adquire o imóvel e monta gráfica no térreo. Ainda nos anos 1950, nos dois pavimentos superiores, é inaugurada a boate Arpeje

Anos 1990 – A boate Arpeje fecha as portas no final da década

2005 – Imóvel é adquirido pela empresária carioca Paula Homburger, que acreditou no projeto de revitalização da Ribeira

junho de 2008
. dia 9, após chuvas intensas, parte da laje do terceiro pavimento desaba
. dia 12 é requerida vistoria junto a Secretaria Estadual de Segurança Pública e Defesa Social
. dia 13 o Corpo de Bombeiro faz vistoria técnica e atesta “risco iminente de desabamento”
. dia 16 Paula Homburger protocola carta ao prefeito Carlos Eduardo, onde informa os motivos que a levaram adquirir o prédio e a falta de recursos para demolir ou restaurar o imóvel
dia 20, engenheiro emite laudo recomendando demolição; no mesmo dia é solicitada autorização junto a Semurb para demolição, que não foi autorizada

2009 – em maio, Fundação Capitania das Artes aprova pedido de tombamento do edifício como patrimônio histórico; Paula Bomburger envia novas cartas para Funcarte e Prefeitura

2010 – em julho o Diário Oficial da União publica o tombamento do Centro Histórico de Natal pelo Iphan, incluindo o edifício Galhardo

2011 – Paula se reúne com Iphan-RN para explicar a situação e toma conhecimento do processo (ainda em curso) que pede restauração do imóvel

2012 – A proprietária envia nova carta Funcarte 

TRIBUNA DO NORTE

Comentários