COMO É TRATADA A CULTURA E A MEMÓRIA DO NOSSO POVO: VEJA A MATÉRIA SONHO EM RUÍNAS E CONFIRA SE NA SUA REGIÃO TEM ALGO ASSIM
POR Cinthia Lopes
editora
A Ribeira será o local perfeito para passear no final da tarde com a família, curtir um happy hour com os amigos ou ainda esticar a noite e cair na balada. Um verdadeiro museu a céu aberto, com casarões bem conservados de fachadas coloridas. No futuro próximo, o bairro histórico terá intenso movimento de pessoas interessadas em aproveitar o charme dos bares e galerias de arte instalados nos imóveis antigos restaurados. Ruas bem urbanizadas e arborizadas, acesso e mirantes para o Rio Potengi, segurança, sinalização bilíngue, iluminação e limpeza, com estrutura para receber um turismo qualificado. E tudo com incentivos fiscais (IPTU e ISS), lei municipal que passa por ajustes para ser reeditada.
O sonho, em forma de plantas baixas e maquetes eletrônicas, conquistou simpatia de muitos em meados de 2000 e encheu os olhos da empresária carioca Paula Homburger, 55, que atualmente trabalha como tradutora freelancer no Rio de Janeiro. Entusiasmada com a proposta e vislumbrando um futuro promissor, não contou conversa e sacou suas economias para adquirir um imóvel em especial, o Edifício Galhardo (nome oficial do casarão onde funcionou a lendária boate Arpeje), um imponente imóvel de três pavimentos situado no número 161 da Rua Chile. Em 2005, contrariando o conselho de amigos, investiu R$ 110 mil na compra do antigo casarão com planos de abrir um restaurante no térreo e uma pequena pousada em cima. O edifício foi utilizado apenas uma única vez, em 2006, como locação do filme “O homem que desafiou o Diabo”, produção dirigida por Moacyr de Góes inspirada no livro “As pelejas de Ojuara”, de Nei Leandro de Castro.
“Você não imagina o projeto que nos foi apresentado. Era tudo tão perfeito!”, lembrou Paula por telefone ao VIVER. “Que outras pessoas também compraram imóveis na época, com a mesma intenção de abrir um negócio na Ribeira”, emendou. Wilma de Faria, atual vice-prefeita, era a chefe do executivo no período.
Vale lembrar que a revitalização da Ribeira está em pauta desde o início dos anos 1990. Em documento emitido pelo Iphan-Rn em 2003, tratando da “rehabitação” de prédios na Ribeira, como o restaurado e funcionando Edifício Bila, na Av. Duque de Caxias, a restauração do Galhardo foi estimada em R$ 279.591,37.
Segundo ela, quando comprou o casarão, o imóvel estava na lista das casas que a Prefeitura iria comprar. “Sentei várias vezes com o pessoal do patrimônio histórico, havia um projeto para restaurar toda a Ribeira. Quando percebi que o projeto não iria emplacar, procurei artistas e grupos, queria manter o espaço funcionando. O máximo que me ofereceram foi incentivo ”.
Pesadelo
Paula viveu em Natal entre 2003 e 2007, tinha um restaurante na praia de Maracajaú, e confessa ter se apaixonado pelo RN desde a primeira visita – teve de voltar para o Rio de Janeiro devido a saúde fragilizada do pai. Entre 2011 e 2012 voltou a morar na capital potiguar, com a missão de resolver a questão do imóvel (vender ou repassar para o poder público). “Depois que Wilma saiu (da Prefeitura), ninguém mais tocou no assunto ‘revitalização da Ribeira’ e o sonho virou pesadelo”.
E virou mesmo: antes de vencer a burocracia e transferir o Edifício Galhardo para seu nome, o segundo andar da Arpeje ruiu com as fortes chuvas que caíram em Natal naquele mês de junho de 2008, dois anos e meio após Paula assinar o contrato de compra e venda chancelado por Magnólia Galhardo Rocha, herdeira do tipógrafo Nestor Galhardo, que havia adquirido o imóvel de uma família de alemães em 1953 – local, ele montou sua gráfica no térreo e arrendou os dois pavimentos superiores para a boate Arpeje.
Tombamento
A laje superior do Edifício Galhardo, que até então não tinha sido tombado pelo patrimônio histórico, desabou dia 9 de junho de 2008. Telefonaram avisando, e no dia seguinte Paula Homburger começou sua peregrinação para tentar salvar seu investimento: procurou Iphan-RN, Prefeitura, Secretaria de Meio Ambiente e Urbanismo (Semurb), Fundação Capitania das Artes e Corpo de Bombeiros. Cada passo foi devidamente registrado e protocolado: ela repassou à reportagem da TRIBUNA DO NORTE um calhamaço de processos, laudos, vistorias, solicitações e cartas.
Entre os documentos uma curiosidade: um ano antes da Ribeira ser tombada como patrimônio cultural brasileiro pelo Iphan nacional em 2010, o município já havia tombou isoladamente o Edifício Galhardo. Ela diz desconhecer os motivos para o tombamento avulso, e hoje responde processo movido pelo Iphan que exige a restauração do imóvel. “Não tenho recursos para fazer os reparos exigidos, informei isso logo após o desabamento por carta (protocolada dia 16 de junho de 2008) ao prefeito Carlos Eduardo”.
Logo após o desabamento, um ano antes do tombamento municipal e dois anos antes do tombamento nacional, Paula tentou autorização na Semurb para demolir o que restou da finada Arpeje – na ocasião apresentou vistoria assinada (dia 20 de junho, 11 dias após o sinistro) pelo engenheiro Manoel Fernandes de Negreiros Neto, onde ele recomendada “imediata demolição” e urgência no escoramento, isolamento da área e reforço estrutural até que o tombamento (literal) seja providenciado.
Com a demolição negada, foi atrás da Urbana para que os escombros fossem removidos; pediu orientação do Iphan-RN e dos Bombeiros; buscou ajuda para fazer um escoramento de emergência... nada! “Na gestão Micarla de Souza cheguei a procurar novamente a Funcarte, mas riram da minha cara e pararam de me atender”, reclama.
Em tempo: o PAC Cidades Históricas vai lançar linha de crédito para restauração de imóveis particulares no valor de R$ 300 milhões para todo o Brasil. A previsão para o lançamento é 2015. Até lá, se o edifício não cair, Paula aguarda uma solução e/ou algum interessado em comprar o imóvel. E pelo que consta, quando o proprietário não tem condições de manter um imóvel tombado pelo patrimônio, ele é desapropriado pelos órgãos competentes. “Sei da importância histórica do lugar e gostaria bastante de vê-lo restaurado”, finaliza.
MEMÓRIA
Década de 1940 – após a Segunda Guerra, o edifício é construído por uma família de alemães
1953 – O tipógrafo Nestor Galhardo adquire o imóvel e monta gráfica no térreo. Ainda nos anos 1950, nos dois pavimentos superiores, é inaugurada a boate Arpeje
Anos 1990 – A boate Arpeje fecha as portas no final da década
2005 – Imóvel é adquirido pela empresária carioca Paula Homburger, que acreditou no projeto de revitalização da Ribeira
junho de 2008
. dia 9, após chuvas intensas, parte da laje do terceiro pavimento desaba
. dia 12 é requerida vistoria junto a Secretaria Estadual de Segurança Pública e Defesa Social
. dia 13 o Corpo de Bombeiro faz vistoria técnica e atesta “risco iminente de desabamento”
. dia 16 Paula Homburger protocola carta ao prefeito Carlos Eduardo, onde informa os motivos que a levaram adquirir o prédio e a falta de recursos para demolir ou restaurar o imóvel
dia 20, engenheiro emite laudo recomendando demolição; no mesmo dia é solicitada autorização junto a Semurb para demolição, que não foi autorizada
2009 – em maio, Fundação Capitania das Artes aprova pedido de tombamento do edifício como patrimônio histórico; Paula Bomburger envia novas cartas para Funcarte e Prefeitura
2010 – em julho o Diário Oficial da União publica o tombamento do Centro Histórico de Natal pelo Iphan, incluindo o edifício Galhardo
2011 – Paula se reúne com Iphan-RN para explicar a situação e toma conhecimento do processo (ainda em curso) que pede restauração do imóvel
2012 – A proprietária envia nova carta Funcarte
TRIBUNA DO NORTE
editora
A Ribeira será o local perfeito para passear no final da tarde com a família, curtir um happy hour com os amigos ou ainda esticar a noite e cair na balada. Um verdadeiro museu a céu aberto, com casarões bem conservados de fachadas coloridas. No futuro próximo, o bairro histórico terá intenso movimento de pessoas interessadas em aproveitar o charme dos bares e galerias de arte instalados nos imóveis antigos restaurados. Ruas bem urbanizadas e arborizadas, acesso e mirantes para o Rio Potengi, segurança, sinalização bilíngue, iluminação e limpeza, com estrutura para receber um turismo qualificado. E tudo com incentivos fiscais (IPTU e ISS), lei municipal que passa por ajustes para ser reeditada.
Júnior Santos
O imóvel foi tombado pelo Iphan em 2010 e até hoje não recebeu nenhuma melhoria
O imóvel foi tombado pelo Iphan em 2010 e até hoje não recebeu nenhuma melhoriaO sonho, em forma de plantas baixas e maquetes eletrônicas, conquistou simpatia de muitos em meados de 2000 e encheu os olhos da empresária carioca Paula Homburger, 55, que atualmente trabalha como tradutora freelancer no Rio de Janeiro. Entusiasmada com a proposta e vislumbrando um futuro promissor, não contou conversa e sacou suas economias para adquirir um imóvel em especial, o Edifício Galhardo (nome oficial do casarão onde funcionou a lendária boate Arpeje), um imponente imóvel de três pavimentos situado no número 161 da Rua Chile. Em 2005, contrariando o conselho de amigos, investiu R$ 110 mil na compra do antigo casarão com planos de abrir um restaurante no térreo e uma pequena pousada em cima. O edifício foi utilizado apenas uma única vez, em 2006, como locação do filme “O homem que desafiou o Diabo”, produção dirigida por Moacyr de Góes inspirada no livro “As pelejas de Ojuara”, de Nei Leandro de Castro.
“Você não imagina o projeto que nos foi apresentado. Era tudo tão perfeito!”, lembrou Paula por telefone ao VIVER. “Que outras pessoas também compraram imóveis na época, com a mesma intenção de abrir um negócio na Ribeira”, emendou. Wilma de Faria, atual vice-prefeita, era a chefe do executivo no período.
Vale lembrar que a revitalização da Ribeira está em pauta desde o início dos anos 1990. Em documento emitido pelo Iphan-Rn em 2003, tratando da “rehabitação” de prédios na Ribeira, como o restaurado e funcionando Edifício Bila, na Av. Duque de Caxias, a restauração do Galhardo foi estimada em R$ 279.591,37.
Segundo ela, quando comprou o casarão, o imóvel estava na lista das casas que a Prefeitura iria comprar. “Sentei várias vezes com o pessoal do patrimônio histórico, havia um projeto para restaurar toda a Ribeira. Quando percebi que o projeto não iria emplacar, procurei artistas e grupos, queria manter o espaço funcionando. O máximo que me ofereceram foi incentivo ”.
Pesadelo
Paula viveu em Natal entre 2003 e 2007, tinha um restaurante na praia de Maracajaú, e confessa ter se apaixonado pelo RN desde a primeira visita – teve de voltar para o Rio de Janeiro devido a saúde fragilizada do pai. Entre 2011 e 2012 voltou a morar na capital potiguar, com a missão de resolver a questão do imóvel (vender ou repassar para o poder público). “Depois que Wilma saiu (da Prefeitura), ninguém mais tocou no assunto ‘revitalização da Ribeira’ e o sonho virou pesadelo”.
E virou mesmo: antes de vencer a burocracia e transferir o Edifício Galhardo para seu nome, o segundo andar da Arpeje ruiu com as fortes chuvas que caíram em Natal naquele mês de junho de 2008, dois anos e meio após Paula assinar o contrato de compra e venda chancelado por Magnólia Galhardo Rocha, herdeira do tipógrafo Nestor Galhardo, que havia adquirido o imóvel de uma família de alemães em 1953 – local, ele montou sua gráfica no térreo e arrendou os dois pavimentos superiores para a boate Arpeje.
Tombamento
A laje superior do Edifício Galhardo, que até então não tinha sido tombado pelo patrimônio histórico, desabou dia 9 de junho de 2008. Telefonaram avisando, e no dia seguinte Paula Homburger começou sua peregrinação para tentar salvar seu investimento: procurou Iphan-RN, Prefeitura, Secretaria de Meio Ambiente e Urbanismo (Semurb), Fundação Capitania das Artes e Corpo de Bombeiros. Cada passo foi devidamente registrado e protocolado: ela repassou à reportagem da TRIBUNA DO NORTE um calhamaço de processos, laudos, vistorias, solicitações e cartas.
frankie marcone
O edifício Galhardo (Arpeje) teve parte de sua estrutura comprometida quando ruiu em 2008
O edifício Galhardo (Arpeje) teve parte de sua estrutura comprometida quando ruiu em 2008Entre os documentos uma curiosidade: um ano antes da Ribeira ser tombada como patrimônio cultural brasileiro pelo Iphan nacional em 2010, o município já havia tombou isoladamente o Edifício Galhardo. Ela diz desconhecer os motivos para o tombamento avulso, e hoje responde processo movido pelo Iphan que exige a restauração do imóvel. “Não tenho recursos para fazer os reparos exigidos, informei isso logo após o desabamento por carta (protocolada dia 16 de junho de 2008) ao prefeito Carlos Eduardo”.
Logo após o desabamento, um ano antes do tombamento municipal e dois anos antes do tombamento nacional, Paula tentou autorização na Semurb para demolir o que restou da finada Arpeje – na ocasião apresentou vistoria assinada (dia 20 de junho, 11 dias após o sinistro) pelo engenheiro Manoel Fernandes de Negreiros Neto, onde ele recomendada “imediata demolição” e urgência no escoramento, isolamento da área e reforço estrutural até que o tombamento (literal) seja providenciado.
Com a demolição negada, foi atrás da Urbana para que os escombros fossem removidos; pediu orientação do Iphan-RN e dos Bombeiros; buscou ajuda para fazer um escoramento de emergência... nada! “Na gestão Micarla de Souza cheguei a procurar novamente a Funcarte, mas riram da minha cara e pararam de me atender”, reclama.
Em tempo: o PAC Cidades Históricas vai lançar linha de crédito para restauração de imóveis particulares no valor de R$ 300 milhões para todo o Brasil. A previsão para o lançamento é 2015. Até lá, se o edifício não cair, Paula aguarda uma solução e/ou algum interessado em comprar o imóvel. E pelo que consta, quando o proprietário não tem condições de manter um imóvel tombado pelo patrimônio, ele é desapropriado pelos órgãos competentes. “Sei da importância histórica do lugar e gostaria bastante de vê-lo restaurado”, finaliza.
MEMÓRIA
Década de 1940 – após a Segunda Guerra, o edifício é construído por uma família de alemães
1953 – O tipógrafo Nestor Galhardo adquire o imóvel e monta gráfica no térreo. Ainda nos anos 1950, nos dois pavimentos superiores, é inaugurada a boate Arpeje
Anos 1990 – A boate Arpeje fecha as portas no final da década
2005 – Imóvel é adquirido pela empresária carioca Paula Homburger, que acreditou no projeto de revitalização da Ribeira
junho de 2008
. dia 9, após chuvas intensas, parte da laje do terceiro pavimento desaba
. dia 12 é requerida vistoria junto a Secretaria Estadual de Segurança Pública e Defesa Social
. dia 13 o Corpo de Bombeiro faz vistoria técnica e atesta “risco iminente de desabamento”
. dia 16 Paula Homburger protocola carta ao prefeito Carlos Eduardo, onde informa os motivos que a levaram adquirir o prédio e a falta de recursos para demolir ou restaurar o imóvel
dia 20, engenheiro emite laudo recomendando demolição; no mesmo dia é solicitada autorização junto a Semurb para demolição, que não foi autorizada
2009 – em maio, Fundação Capitania das Artes aprova pedido de tombamento do edifício como patrimônio histórico; Paula Bomburger envia novas cartas para Funcarte e Prefeitura
2010 – em julho o Diário Oficial da União publica o tombamento do Centro Histórico de Natal pelo Iphan, incluindo o edifício Galhardo
2011 – Paula se reúne com Iphan-RN para explicar a situação e toma conhecimento do processo (ainda em curso) que pede restauração do imóvel
2012 – A proprietária envia nova carta Funcarte
TRIBUNA DO NORTE
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